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segunda-feira, 19 de junho de 2017

Eu, Tu, Eles


O filme “Eu, Tu, Eles” (Andrucha Waddington, Brasil, 2000) é baseado na história real de uma mulher que viveu com três “maridos” no sertão nordestino. O filme foi bastante aclamado pela crítica brasileira. Só para exemplificar, recebeu do site Terra a seguinte manchete: “Eu, Tu, Eles ou uma mulher com três maridos num país machista”.
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Nada a estranhar, uma vez que a nossa mídia ‘feminista’ está na onda de nos empurrar goela abaixo a “mulher brasileira guerreira que não desiste nunca”. Note-se que a película é vendida como uma história fantástica de uma mulher que venceu o preconceito e conquistou – mais do que a igualdade – a superioridade sobre o homem, uma vez que vive com três debaixo do mesmo teto.

O grande problema, ao meu ver, é que confundem os méritos da “heroína” como trabalhadora com a sua promiscuidade. O que quero dizer é que, ao invés de ela ser exaltada por ser uma grande trabalhadora, contra todas as adversidades, se louva o fato de ela possuir e dominar três comedores. Pois bem, meu ponto de vista é um pouco diferente. Segue abaixo a sinopse comentada do filme:

A história começa com uma moça grávida, chamada Darlene (Regina Casé), solteira, que recebe uma proposta de casamento de um vizinho, Osías (Lima Duarte). Logo após casarem-se, fica claro que Osías – mais velho do que a mulher – juntou-se a ela por pura conveniência. Enquanto Darlene faz todo o trabalho de casa e ainda trabalha fora, nos canaviais, Osías passa os dias deitado na rede, ouvindo rádio de pilha e outras futilidades, achando que o fato de possuir a casa e oferecer um teto a Darlene já é mais do que o suficiente.

Enquanto ainda vivem só os dois debaixo daquele teto, Darlene engravida novamente e... surpresa: nasce uma criança negra! Para os mais desavisados, nem o pai e nem a mãe são negros. Não perca a contagem: por enquanto, Darlene é mãe de 2 crianças (nenhuma de seu marido). Osías ameaça protestar pelo fato de o filho ter nascido negro, mas sem muito ânimo desiste, pois não quer perder a mão de obra gratuita – seu real interesse na relação. Interessante é a justificativa de Darlene: “ele nasceu pretinho porque fez muita força no parto.”

A história segue e mostra que, quando vão para os bailes na vila dançar forró, Darlene sempre deixa o marido sentado em uma mesa tomando cachaça e dá mole para todos os machos do recinto. Osías finge que não vê nada. É aí que começa a entrar na história o primo de Osías, Zezinho (Stênio Garcia). Darlene insinua-se para ele no baile, o convida para dançar e se divertem bastante. Algum tempo depois, Osías leva o primo Zezinho para morar com ele e Darlene. Enquanto Osías segue fazendo nada o dia inteiro, Zezinho torna-se o cozinheiro da casa e ajuda a criar os meninos, e Darlene segue trabalhando pesado, trazendo o dinheiro para dentro de casa. Não demora muito para Zezinho começar a meter um belo par de chifres no primo que, como de costume, faz vista grossa para tudo, para não perder seu conforto (mulher e primo trabalhando para ele). Zezinho, sob o pretexto de levar almoço para Darlene no canavial, engata um romance clandestinamente com ela.

Aqui, cumpre referir que Zezinho se apaixona por Darlene. Nota-se que ele está apegado e feliz por estar comendo a mulher do primo que vive sob o mesmo teto. Nada abala sua alegria, uma vez que, na comparação entre os dois, Zezinho sente-se superior a Osías perante a fêmea. Osías não demonstra interesse nenhum em “cumprir com seu dever conjugal”, e cabe a Zezinho saciar a libido (incontrolável) de Darlene.

Nem preciso dizer que Darlene engravida de novo – mais uma vez, de outro homem que não seu marido. A estas todas, Osías e todos os outros fingem acreditar que os três filhos são dele – apesar de serem multicoloridos

A felicidade de Zezinho começa a ruir quando Darlene passa a assediar um “colega de trabalho”, Ciro (Luiz Carlos Vasconcelos). Deixemos claro que Ciro é um rapaz mais jovem e atraente do que os dois velhos que vivem com Darlene. Por uma dessas coisas do destino, Darlene convida Ciro para ficar uns tempos morando com eles, e Osías aceita de bom grado – até porque o rapaz traz mantimentos para casa, o que satisfaz o anfitrião. Zezinho começa a morder-se de ciúmes e a exigir que o primo expulse de casa o novo inquilino. Osías não só diz que o rapaz fica na casa, como obriga Zezinho a fazer e levar almoço para Ciro também. Numa dessas, Osías pega Darlene no “ato” com Ciro, no meio dos canaviais. Zezinho, que está apaixonado e totalmente apegado a Darlene, destrata o rapaz e faz de tudo para ele sair, mas Osías não permite que Ciro vá embora – pois recebe dele provisões para o lar.

Neste novo cenário, Darlene começa a dedicar mais atenção a Ciro – o cara mais destacado do grupo –, mas mantém Zezinho sob controle, oferecendo algumas migalhas de sexo uma vez ou outra. Isso faz a chama da paixão de Zezinho acender novamente e ele aceita o novo quadro, sendo o “amante corno” da relação. De corno brabo, vai se tornando corno manso, muito devido à grande habilidade de Darlene em conduzir o macharedo. Pois bem, Darlene engravida de Ciro.

Aqui vem a chave de ouro do filme: com Darlene grávida, Ciro a convida para fugirem os dois e “viverem felizes para sempre”. Darlene, usando de todo o seu ardil, pede para Zezinho convencer Osías a construir um quarto para Ciro - seu comedor titular - na casa. Caso contrário, diz ela, vai fugir com Ciro. Incrivelmente, Zezinho convence Osías e os dois constroem juntos o “puxadinho” para Ciro ficar na casa morando com eles. Nasce a quarta criança e Osías registra os quatro de uma vez, todos como seus filhos – apesar de nenhum sê-lo. Darlene fica morando na casa com os três maridos e os quatro filhos. Fim.

Moral da história:

- Osías (Lima Duarte) aceita ser corno e finge não ver/saber de nada, pois seu interesse maior é ter quem trabalhe para ele;

- Zezinho (Stênio Garcia) é o amante corno apaixonado que revolta-se primeiro, mas com o tempo aceita a situação, pois sabe que não tem cacife para competir com alguém mais destacado, e que o melhor que pode conseguir são as migalhas de Darlene que sobram da relação com Ciro;

- Ciro (Luiz Carlos Vasconcelos) é o “cafajeste”, que consegue casa, comida, roupa lavada e uma mulher para trepar quando bem entender – tudo de graça. Até trabalha para ajudar no sustento da casa, mas os bônus que recebe são muito maiores do que os ônus que sofre;

- Darlene (Regina Casé) é uma p*t@ sem precedentes que não respeita o marido, dá pra todo mundo, tem um filho de cada pai e ainda controla os homens ao seu redor.

Termino o texto com a seguinte indagação: É essa a “brasileira guerreira” que deve servir de exemplo para as nossas mulheres?

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